====================================================================================================================

sábado, 27 de novembro de 2010

José Mariano Beltrame: “Não podemos recuar”

Para o secretário de Segurança do Rio, os ataques dos traficantes procuram fragilizar uma ação do Estado que tem dado certo

ÉPOCA – Por que a inteligência da Secretaria de Segurança não se antecipou a essa onda de ataques no Rio, com um reforço do patrulhamento nas ruas? 
José Mariano Beltrame –
Se tivéssemos a informação toda, com os locais, as ações, é claro que não iríamos esperar passivamente. Sem dados suficientes, as ameaças vão se esfarelando. Agora, neste momento, sim, estamos recebendo a toda hora as definições, o que vai acontecer, onde e quando. Podemos prever e evitar algumas ações, não todas.

ÉPOCA - Em que momento foram interceptados os bilhetes vindos do presídio de Catanduvas, no Paraná, mandando instalar o terror?
Beltrame -
Eu tomei conhecimento concreto mesmo só na quarta-feira passada. Não se faz inteligência com adivinhação. Tínhamos fragmentos de informação. Sabíamos que haveria retaliação. Mas de que tipo e onde, numa cidade de 12 milhões de pessoas? 
ÉPOCA – Por que, na opinião do governo, os bandidos esperaram a eleição terminar para iniciar a onda de atentados?
Beltrame –
Porque no Rio eles sempre estiveram acostumados à impunidade. Pensaram: daqui a pouco isso tudo não vai dar em nada. Sai o comandante, o secretário, o governador, e tudo volta atrás, como antes. Mas, passada a eleição, viram que todas as pessoas se mantiveram no comando, e que as UPPs estavam aqui para ficar. Resolveram partir então para o desafio aberto.
ÉPOCA – Por que os bandidos não estão matando nenhum civil?
Beltrame –
Porque a ação é especifica contra o poder do estado. Muito mais do que contra as vítimas civis. Os bandidos querem fragilizar uma ação do estado que os está atingindo. E aí resolvem atacar o patrimônio com incêndios que têm um impacto visual e simbólico. Aconteceu em São Paulo, acontece no mundo todo. Essa é a lógica dos atentados.
ÉPOCA – De que adianta transferir presos pra outros estados se eles continuam comandando ações no Rio?
Beltrame –
Realmente, é complicado, e para que essa iniciativa seja totalmente eficaz, é preciso que o isolamento desses chefões seja garantido. Quando os bandidos são transferidos do Rio, começam a alugar casas na cidade onde estão. Mesmo que o contato com os bandos não seja totalmente cortado por causa das visitas de parentes e advogados, fica bem mais difícil para eles do que se estivessem aqui no Rio. Há mais chance de corrupção no Rio, perto de onde eles vivem e têm famílias e amigos. As visitas íntimas são mais fáceis. Na primeira remessa para fora do estado, eles apostaram que iam voltar. Tanto a transferência quanto a pena precisam ter um caráter exemplar. O bandido não pode ser solto como tem sido: de nove anos, cumpre três e sai por bom comportamento, ou sai nos feriados e não volta. Tudo isso precisa ser discutido depois desta crise.

ÉPOCA – Por que o Rio demorou para pedir tropas federais se os arrastões iniciados há meses já pareciam ser sinais de retaliação contra as UPPs? Por orgulho? Beltrame – Sinceramente eu sou um técnico, e por isso estou despojado de qualquer vaidade. Se para atingir tudo que a todos nos propomos, se para atingir um projeto estratégico, tiver que pedir, não vou abrir mão de solicitar colaboração permanente. Num primeiro momento, até por uma consideração profissional, tive que deixar meus homens apresentar seus próprios remédios, porque cancelaram férias, saíram dos escritórios e foram para a rua com uma enorme determinação. Seria uma insensatez ter orgulho numa hora dessas. Nos Jogos Panamericanos, eu chamei a Força Nacional meses antes. Eu estava chegando ao Rio. Pedi: cuide do corcovado, cuide dos monumentos, dos lugares turísticos e aglomeração. Mas, por um dever de cidadania, vou continuar insistindo sempre: as forças vêm com uma ação repressiva e isso não resolve a longo prazo. Porque deixam uma sensação de insegurança quando eles vão embora. Repressão sozinha não garante a paz social.

ÉPOCA - Existe ou não união de facções rivais do tráfico contra as forças de segurança?
Beltrame -
Essa união ainda não está sacramentada. Temos informações segmentadas de que as pessoas num escalão abaixo começam a conversar entre as facções. Não há nitidez. O que tem que ver é que tanto o Comando Vermelho (CV) quanto a ADA (Amigos dos Amigos) se odeiam. A ADA teve seus líderes mortos pelo CV no presídio de Benfica. Depois houve disputa na Rocinha e no Vidigal (na zona sul e nobre do Rio). Então, a ADA raciocina: vamos ficar juntos com o CV - depois de matar meus irmãos, vocês querem ficar meus vizinhos?

ÉPOCA – O governo tem forças suficientes para manter a ocupação da Vila Cruzeiro?
Beltrame –
Hoje, felizmente, nós temos capacidade de reposição, logística, armamentos viaturas, rodízios, temos como fazer pressão e contamos com a organização do estado por trás. E também a ajuda inédita das Forças Armadas. Em 2008, o Exército recusou nossa ajuda. Agora vieram 800 homens. Sem a ajuda dos blindados da Marinha, não poderíamos ter ocupado a Vila Cruzeiro. Porque as barreiras que os traficantes colocam nas ruas, pneus incendiados, carros, jacarés (barras de ferro pontiagudas), impedem a passagem dos Caveirões, furam os pneus. Os blindados, com suas esteiras, vão empurrando tudo que encontram pela frente e não têm pneus. São veículos de guerra, adequados para esse tipo de enfrentamento. Na verdade, esses blindados poupam vidas, poupam o erário público, tornam a invasão muito mais pacífica. Nós não usamos nenhuma vez as armas dos blindados. O objetivo não é dar tiro nem matar. É se impor e prender, retomar o território para as pessoas de bem. No ano passado, a imprensa toda do Brasil e do mundo presenciou helicóptero incendiado com três PMs calcinados dentro. E me perguntaram. O que o sr vai fazer, secretário? A resposta está aí. Dia 30 vamos inaugurar a 13a UPP naquele mesmo local, no Morro dos Macacos. E a resposta àquele bando de traficantes armados e atirando num beco da Vila Cruzeiro veio logo. Forte. Esperávamos um enfrentamento, mas eles fugiram. Podem ter um poderio bélico importante. Mas todos viram pela televisão o que são esses elementos, fugindo desorientados pela mata.

ÉPOCA - A polícia do Rio é criticada por prender pouco. Nas áreas de UPPs, os bandidos saem e vão para outro lugar, como Baixada, Niterói, interior. Existe pouco foco em prisão? Se os traficantes expulsos não foram mortos nem presos, eles foram procurar emprego ou mudaram só de lugar?
Beltrame -
De setembro de 2009 a setembro de 2010, tivemos 287 prisões em UPPs. Não é pouco. Numa operação na Cidade de Deus na segunda-feira passada, cumprimos mais de 40 mandados de prisões. Concordo que a prisão efetivamente é importante. Mas o crucial é tirar o território dos caras, porque assim eles ficam totalmente vulneráveis, muito mais do que na cadeia. Com a UPP instalada, a gente prende todos sem fuzil, só com arma de mão. Porque aí a polícia filma, fotografa, fala com morador, que faz denúncia, e pode formar dossiês. Podemos dar o flagrante e tirar o cara da rua com mais serenidade. Lógico que as coisas não saem todas de acordo com regras de um livrinho. As UPPs mexem tanto com o emocional da população que acabaram ofuscando um pouco o controle de metas no asfalto, onde a gente tem obtido reduções importantes no número de homicídios e roubo de carros, por exemplo.

ÉPOCA – E no asfalto? Esse esforço para colocar um policial para cada 80 habitantes nas favelas não drena demasiadamente os batalhões nos bairros convencionais?
Beltrame –
É assim mesmo que tem que ser. Por exemplo, o bairro da Tijuca tem deficiência em seus efetivos de batalhão. No momento em que coloco 200 policiais no Morro do Salgueiro, eu estou aumentando indiretamente a segurança do bairro. A UPP não desce para o asfalto mas o beneficia. Se eu ocupar a Rocinha e o Vidigal eu vou liberar o batalhão local de ficar vigiando as entradas das favelas. Poderão patrulhar Ipanema e Leblon, fazer o que se espera mesmo deles sem ficar preocupados com movimento do tráfico nas comunidades. É desnecessário e inviável botar uma cabine em cada esquina. Embora todo morador do Rio queira um policial para chamar de seu. Se a gente alargar esse raciocínio, vai entender que esses 2 mil e poucos policiais em UPPs estão livrando os batalhões de um trabalho que não só era ingrato mas impossível. Eles não subiam o morro, mas ficavam perto. Todos os índices de criminalidade caíram no Rio. Não caíram o suficiente, claro que continuam altos. Mas com nossas medidas, há 15 meses os índices estão despencando.

ÉPOCA - A onda de atentados terroristas dos bandidos o levará reavaliar o ritmo de instalação das Upps, pedindo mais recursos e agentes federais?
Beltrame -
O ritmo não deve ser acelerado, senão perderemos em qualidade. Já liberamos do domínio do tráfico 220 mil pessoas. Não vou diminuir o treinamento dos novos policiais de seis para três meses. Serão treinados 4 mil por ano até 2014. Não podemos perder nossa credibilidade com a população. Temos um tipo de prova, um conteúdo programático. Investimos R$ 15 milhões na academia. Poderia ter colocado 12 mil homens? Mas teria problemas. Não sei se alguns problemas com PMs hoje não são causados por um curso mal feito lá atrás. Mas podemos mudar a ordem das áreas, a Vila Cruzeiro terá provavelmente que ser antecipada, agora, com essa ocupação. Vamos partir para as áreas mais conflagradas: São Carlos, Mandela, Manguinhos, Jacaré, Rocinha. Sei que os moradores todos querem UPP logo. Mas o que eram Turano, Borel, Salgueiro, Pavão Pavãozinho, Dona Marta? Esses agora estão pacificados.

ÉPOCA – Não foi ingenuidade supor que os traficantes não reagiriam ao cerco a seus negócios?
Beltrame –
Mas nós sabíamos que eles reagiriam. Só não sabíamos como, onde e quando. Se eu intensifico o trabalho da polícia e sacrifico meus homens antes do tempo, é um esforço imenso que traz um prejuízo para outras coisas que a PM tem que fazer. Aos poucos analisamos onde jogar as nossas energias porque os recursos não são infinitos. E necessários não só na cidade, mas em todo o estado. Obvio que a gente sabia que as retaliações aconteceriam. Não buscávamos um enfrentamento com essa dimensão, por preocupação com a própria população. Mas fomos obrigados a reagir. E mostramos união, organização, eficiência e frieza. Estamos sendo obrigados, claro, a queimar algumas etapas. Não podemos manter todos na rua 24 horas por dia, mas buscaremos outras soluções. Sei que os ataques deixam as pessoas fragilizadas, sei que tem que fazer repressão. Mas 40 anos de repressão errante não resolveram. Precisamos olhar longe, queremos como toda a população que todos os índices de criminalidade caiam para níveis aceitáveis. Não podemos recuar, não podemos desistir, não podemos perder a oportunidade que o Rio tem diante de si. E o que aconteceu nesta semana foi um marco muito positivo. Só temos a agradecer pela união de todas as forças e o apoio da população.

Fonte: revistaepoca.globo.com

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Leia as regras: ofensas pessoais, ameaças e xingamentos são terminantemente inaceitáveis. Tais condutas contrariam todos os objetivos e princípios que norteiam este canal democrático de informação. Comentários anônimo não serão aceitos sem um E-mail valido.

============================================================
============================================================

AS MAIS ACESSADAS